O Mastim Napolitano ou Mastino Napoletano, como preferem seus criadores mais ortodoxos, é um cão muito antigo. Tem-se conservado quase como uma peça de antiquário, com a mesma força, rusticidade, dignidade e altivez mostradas nos testemunhos literários e iconográficos mais antigos. Suas origens se perdem no tempo e há uma vasta biografia, tanto italiana quanto estrangeira, sobre o Mastino Napoletano que, de várias maneiras, tentam traçar sua história, desde suas origens aos dias atuais, com abundantes referências pictóricas e escritas. Para aqueles que se interessarem em aprofundar suas pesquisas, de todos os trabalhos disponíveis hoje, certamente o mais respeitado é o “Il Molosso, Viaggio Intorno al Mastino Napoletano” do professor Felice Cesari, publicado por Fausto Fiorentino em 1995.
A maioria dos entendidos nesta antiga raça concorda em atribuir o seu local de origem ao continente asiático, em particular aos planaltos Tibetanos, de onde imensos e fortes molossos se espalharam por todo o mundo, sobretudo na Europa, através de diversos caminhos. A história deste antigo molosso, que se confunde com a do Mastino Napoletano, acompanha momentos históricos e fases importantes da grande aventura humana.
Séculos atrás, nos planaltos do Himalaia, guardando os monastérios, vivia um molossóide de grande porte, com uma grande cabeça, de grande força e com uma grande cauda recurvada sobre seu dorso: era o legendário Mastim do Tibet, criado nos monastérios budistas. Aqueles que tiveram a fortuna de vê-lo, o descrevem como um cão de porte incrivelmente enorme, mais semelhante a um leão que a um cão. O Mastim Tibetano é considerado o ancestral de todas as raças molossóides. Há também indícios de que os Sumérios criavam cães grandes e poderosos, que eram usados em batalhas e na caça de grandes animais, especialmente leões. Suas características principais eram uma grande e poderosa cabeça com focinho forte e curto; membros fortes e musculosos, sustentados por uma estrutura óssea bem desenvolvida, um tronco sólido e forte e uma altura imponente. Tal cão poderoso deve ter sido certamente um descendente do grande Mastim Tibetano. Assim, os Sumérios, tão misteriosos, e ao mesmo tempo, tão cultos e avançados, devem ter, no curso de suas migrações, trazido esta raça para a Mesopotâmia.
Nas terras entre o Tigre e o Eufrates, esta raça teve a fortuna de ter sido representada em muitos grandes achados arqueológicos. Esses achados são agora mantidos em alguns dos maiores museus do mundo. Nós sabemos que na Mesopotâmia existiam grandes povoados (Fridu, Susa, Ur e Uruk – apenas para mencionar os mais famosos) e que nesses povoados grandes cães eram criados e usados principalmente para proteger propriedades e criações domésticas dos ataques de leões, que eram comuns naquela região, naquela época. As façanhas destes cães deram origem a várias lendas populares. Portanto, isto explica o interesse demonstrado pelos artistas daquele tempo. Assim, é a partir dessa época que nós vemos as primeiras representações artísticas históricas desse cão.

As terracotas do Museu Metropolitano de Nova Iorque e no Museu de Arte de Chicago mostram imagens de um cão muito semelhante ao nosso Mastino Napoletano. A primeira mostra um cão sentado, com a cabeça extremamente grande, cheia de rugas, com uma musculatura fantasticamente poderosa e orelhas amputadas. Na segunda, nos vemos uma fêmea com as mesmas características poderosas e solidez da cabeça amamentando quatro filhotes. A similaridade entre essas imagens históricas e o moderno Mastino é impressionante.

Para melhor apreciar as dimensões e poder desses cães, nós precisamos apenas examinar a terracota Assíria que é mantida no Museu Britânico, e que mostra um cão sendo seguro pela coleira pelo seu dono. Esse objeto é de excepcional interesse artístico e histórico e por essa razão é citado nos mais importantes textos científicos e nos permite fazer especulações de forma ainda mais precisa e detalhada sobre esses grandes molossos da antiguidade. Primeiramente, a altura da cernelha (parte do corpo de alguns animais onde se juntam as espáduas) alcança a cintura do dono e, portanto, certamente não pode ser menor do que 80 cm. A cabeça é volumosa e com muitas pregas com orelhas intactas, achatadas e implantadas bem alto na cabeça. A papada (barbela) é bem desenvolvida começando próxima ao canto da boca e terminando abaixo do pescoço. O tronco é imensamente maciço e poderoso, mais largo do que alto na região da cernelha e sustentado por uma estrutura óssea muito forte e compacta. Esses testemunhos históricos imediatamente lembram o moderno Mastino, de tão próxima que é sua semelhança com as criações atuais.
Por causa das guerras e das migrações, esses cães se espalharam rumo ao ocidente em três direções, ao norte para Anatólia, Grécia, Macedônia e Albânia; ao sul para o Egito e a Líbia e em direção à costa ocidental da bacia Mediterrânea, que era então a terra dos Fenícios. Esse foi um passo importante na expansão da raça através da Europa e, particularmente, na Itália. Tais cães poderosos eram, freqüentemente, oferecidos com presentes entre os governantes da época. Alexandre, o Grande, tinha orgulho de seus molossos, presenteados por um rei. O cônsul romano Paulus Emilius, cujas legiões haviam sido vitoriosas em solo dos molossos, trouxe com ele vários desses grandes cães como espólio de guerra, para mostrar às pessoas em Roma. O próprio Júlio César, em sua campanha Britânica, viu suas legiões enfrentarem cães de grande estatura e coragem, muito semelhantes àqueles descritos acima. Ele se referiu a eles como “Pugnaces Brittaneae”. Impressionado por tal poder e coragem, César levou vários exemplares com ele de volta a Roma e, ao mesmo tempo, designou um procurador na Bretanha, encarregado de localizar e transportar esses cães para Roma. A presença dessa raça na Bretanha fortalece e confirma a hipótese de que mesmo antes dos Romanos, os Fenícios (indiscutivelmente os reis do comércio naquela época), espalharam este tipo de cão pela bacia Mediterrânea. Nós podemos, portanto afirmar com certeza, que mesmo antes de Paulus Emilius e Júlio César, alguns desses grandes molossos já haviam chegado a território italiano, trazidos pelos Fenícios.
Estes estupendos animais trazidos para Roma foram então adestrados para o combate e para os jogos de arena, onde participavam de inúmeras exibições e espetáculos de combate, quase sempre contra homens ou animais ferozes. Os cães de Roma, com o passar dos séculos, se cruzaram, ou com os cães dos Celtas do Norte, trazidos a Roma por causa da vitória de César sobre a Gália, ou com os Molossos do Épiro, vindos através de intercâmbios comerciais com as frotas Fenícias do sul do Mar Mediterrâneo. Nos séculos seguintes esses molossos foram criados principalmente no sul da península italiana, porque era bem ali naquela região, sobretudo na parte que é considerada a atual região de Campania, que se localizavam as grandes escolas de Gladiadores, como a de Cápua.
A pessoa que estudou o Mastino de forma mais aprofundada e em maiores detalhes, foi Columella, que mais ou menos definiu o que poderia ser chamado de padrão da raça no primeiro século DC. Na sua “De Re-Rustica”, Columella o define como um excelente guardião da casa e propriedade, antecipando o seu atual uso em quase 2000 anos. Embora o Mastino fosse usado nos tempos romanos como arma de guerra e no combate contra animais selvagens nos circos, ele foi mais tarde encontrado nas cortes da Renascença, na região central e norte da Itália, como caçador de animais de grande porte (veado e javali). Permaneceu um cão de guarda, continuando a função que o tornara, há muito tempo atrás, famoso entre os Sumérios e os Mesopotâmios. Precisamente por causa desta aptidão natural como cão de guarda, a classe patrícia Romana usava o Mastino para a proteção de suas vilas, que eram, em certa época, numerosas na região de Campania. Após a queda do Império Romano, os cães permaneceram, encontrando um habitat favorável nas escarpas do Vesúvio, e estabelecendo uma íntima conexão tanto com a terra, quanto com o povo que lá residia. Os vários domínios que se sucederam no sul da Itália, foram muito significativos para a raça. A realeza espanhola utilizava os cães dos “conquistadores” e, nas cortes, eram chamados de “perro da presa” que se modificou para “cane ‘e presa” que permaneceu no dialeto Partenopeu. Com o suceder dos anos foi atribuído a esta raça o nome “Mastino”, que deriva de “massatinus” que significa guardião da “masseria”.
No início do século XX essa raça foi utilizada essencialmente para vigiar as fazendas no interior Partenopeu. Durante a 2ª Guerra Mundial, esta raça quase desapareceu, pois muitos exemplares morreram. A fome se abateu sobre todos e não havia alimentação suficiente para o pesado Mastino, que consome em média 2,5 kg de comida por dia.
Apesar de sua antigüidade, o Mastino Napoletano só foi reconhecido oficialmente como raça bem mais recentemente e esse feito deveu-se, especialmente, ao trabalho de seleção do escritor e cinófilo Piero Scanziani. Ele se apaixonou por essa raça, a ponto de ser justamente lembrado como o homem a quem devemos a moderna existência dessa raça magnífica.

Durante a 1ª exposição canina em Castel del'Ovo, perto de Nápoles, no dia 12 de outubro de 1946, a atenção do público foi despertada para um grupo de oito imponentes cães de uma raça até então desconhecida. Eles também chamaram a atenção de um jovem cinófilo chamado Piero Scanziani. Tratava-se de oito Molossos provenientes das montanhas da Itália e dentre eles havia um que se destacava dos demais; chamava-se Guaglione e era descendente direto dos antigos Molossos de Épiro. Piero Scanziani quis comprá-lo, porém em vão. Desde este dia, Scanziani, iniciando um trabalho de seleção, passou a percorrer a região do Vesúvio e as montanhas da península em busca de novos exemplares e começou a adquirir fêmeas dessa raça tão admirada. Após muito esforço conseguiu finalmente, em 1949, comprar Guaglione, e nesse mesmo ano de 1949 conseguiu junto ao E.N.C.I. (Ente Nazionale Cinofilo Italiano) o reconhecimento oficial da raça (cujo padrão definitivo foi fixado apenas em 1971). Guaglione se tornou o primeiro campeão da raça e “padrão vivo”. A partir daí, teve início o ressurgimento da raça que passou a ser chamada de Mastino Napoletano, por ter sido redescoberta na cidade italiana de Nápoles.
Isto é o que escreveu Scanziani, após ter visto pela primeira vez um Mastino Napoletano:
“O reconheci instantaneamente... era um daqueles que Paulus Emilius, o Macedônio, havia trazido a Roma após seu triunfo. Era o grande cão de Épiro, filho dos Assírios, neto dos Tibetanos, era o Molosso. Guaglione, do alto de seus séculos, me olhava imperturbável; olhos não hostis e tão pouco gentis, olhar que não dá e não implora, apenas observa...”
Com o tempo a raça ganhou corpo, e juntando-se ao grupo inicial de criadores Partenopeus, se estabelece na Toscana, mais precisamente na cidade de Prato, a pessoa que, nos trinta anos seguintes, sabidamente se tornou uma verdadeira lenda no âmbito da cinofilia mundial - Mario Querci, proprietário do “Allevamento di Ponzano”.

Este é um breve resumo da incrível história do Molosso italiano, que hoje é considerada uma das raças mais antigas do mundo e parte integrante da cultura italiana.