Domingo, 05 de setembro de 2010.

Genética

É importante ressaltar que a genética não deve estar apenas a serviço de cientistas e estudiosos. Todo criador deve conhecer, pelo menos os fundamentos da hereditariedade, para minimizar na sua criação, a transmissão de doenças ou características indesejáveis.
Todos os animais são feitos de bilhões de pequenas células. Os núcleos dessas células contêm toda a informação necessária para regular as atividades da célula e, consequentemente, a forma e função daquele tecido corpóreo em particular, e por fim, formar o animal individual. Esta informação originalmente provém dos pais do animal, metade da mãe e metade do pai.
Esta informação, a partir da qual toda a vida se desenvolve, está no DNA (ácido desoxiribonucleico). Um gene é uma porção de moléculas de DNA, carregadas nos cromossomos. Imagine um cromossomo como sendo uma longa fileira de genes. Centenas e até mesmo milhares de genes podem ser carregados em um mesmo cromossomo. Os cromossomos ocorrem em pares nos núcleos das células, exceto nos óvulos e espermatozóides, onde eles ocorrem isolados. Quando um óvulo é fertilizado pelo espermatozóide, a célula resultante, a partir da qual o animal irá se desenvolver passa a ter pares completos novamente. Esta é a maneira pela qual a informação genética é passada de cada um dos pais.
O cão tem 78 cromossomos, em 39 pares, nos quais, aproximadamente 100.000 genes estão locados. Isto constitui o genótipo do animal. O fenótipo é o que você na verdade vê no animal; e ele pode ser influenciado também por fatores ambientais. Por exemplo, o tamanho de um cão quando adulto é determinado parcialmente por seus genes, mas também é influenciado por fatores ambientais tais como seu estado de saúde quando filhote e o tipo de alimento que ele ingeriu.
Cada gene em um dos pares de cromossomos tem um parceiro na mesma posição (lócus) no cromossomo correspondente. Cada um dos pares de genes é chamado de alelo. Um gene pode ter muitos alelos na população total de cães, mas um animal individual terá apenas 2 alelos que influenciarão um traço particular. Se os 2 alelos forem idênticos (AA ou aa por exemplo), o indivíduo será homozigoto naquele lócus. Se os alelos forem diferentes (Aa) será heterozigoto.
Se o alelo é dominante, apenas uma cópia é necessária para expressar o traço. Se for recessivo então serão necessárias duas cópias. As letras maiúsculas são tradicionalmente usadas para representar traços dominantes e letras minúsculas para os traços recessivos. Assim, um traço dominante, seja ele AA ou Aa, irá expressar aquela característica particular, enquanto que para um traço recessivo apenas aa irá expressar a característica. O heterozigoto (Aa) será um portador, ou seja, clinicamente não afetado, mas capaz de transmitir o alelo prejudicial à sua prole.
Por exemplo, a atrofia progressiva da retina (APR) causa cegueira em muitas raças. O Alelo dominante é representado por P e o alelo recessivo por p. Uma vez que a APR é uma doença recessiva, p é o alelo afetado e P é o alelo normal. Os genótipos PP e pp são homozigotos. Os cães com o genótipo PP terão visão normal e aqueles com pp serão afetados. Os animais Pp são heterozigotos. Esses animais terão visão normal, mas serão portadores. Eles irão transmitir o alelo para a atrofia progressiva da retina para aproximadamente metade de sua prole. Fenotipicamente, ambos PP e Pp têm visão normal, mas seu genótipo é diferente. Nesse caso, como na maioria das doenças recessivas, não há maneira de identificar quais animais são portadores (com o genótipo Pp) até que uma prole afetada nasça.
Características ligadas ao sexo são um pouco diferente. As fêmeas têm um par de cromossomos X (XX), enquanto os machos têm um cromossomo X e um Y (XY). Assim, um alelo de um traço recessivo ligado ao cromossomo X (x) irá causar a expressão daquela característica no macho, enquanto que a fêmea com apenas um alelo (Xx) será clinicamente não afetada.
Uma doença ou anomalia pode ser causada por diversos fatores. Algumas delas são genéticas, isto é, a doença é resultado de uma mutação em um gene que carrega determinada informação. Algumas mutações são espontâneas, tais como as mutações causadas por toxinas consumidas pela mãe durante a gravidez. Um defeito herdado é aquele no qual o gene defeituoso foi herdado de um ou de ambos os pais.
Muitas condições que têm base hereditária bem documentada, podem também ter outras causas. Por exemplo, existem várias formas de cataratas hereditárias, mas as cataratas também podem aparecer como resultado de traumatismos, toxinas, ou de doenças como o diabetes. Ao tentar determinar se uma doença é herdada, seu veterinário irá atentar para muitos fatores, incluindo a idade em que a doença se torna evidente, se ninhadas ou outros parentes são afetados e se o defeito é de ocorrência conhecida naquela raça. É muito importante que as doenças hereditárias sejam identificadas para que essa informação seja transmitida ao criador, de forma que programas de criação possam ser realizados para reduzir ou eliminar essas condições patológicas nos cães.
 
PADRÕES DE HERANÇA
 
Para muitas doenças, o padrão específico de herança não está bem estabelecido. Quando o padrão de herança não é conhecido, as raças que têm um risco relativamente maior para determinadas condições que outras raças são chamadas de raças predisponentes.
A seguir são descritos alguns padrões de herança:
 
1. Autossômica dominante – É quando apenas 1 cópia do gene, que pode ser herdado de qualquer dos pais, é necessário para produzir o traço. O pai ou a mãe com o traço dominante irá passar o gene afetado para aproximadamente metade de sua prole, e o traço será aparente no pai ou mãe e na prole afetada.
Em muitas situações, no entanto, há dominância incompleta. O traço pode ser dominante, mas com expressividade variável, o que significa que se ambos os pais são afetados, todos os filhotes terão susceptibilidade à doença, mas nem todos serão afetados igualmente. Um traço dominante também pode ter penetrância incompleta. Por exemplo, se a sua penetrância for de 75%, apenas ¾ dos filhotes que herdarem o traço irão expressá-lo.
 
2. Autossômica recessiva – Este é o modo mais comum de herança genética em cães. A atrofia progressiva da retina (APR), que causa cegueira em muitas raças é um traço assim. Para ser afetado, o animal deve herdar 2 cópias do gene (genótipo pp), um do pai e outro da mãe. Cães com o genótipo PP (normal) ou Pp (portador) serão clinicamente normais, mas o portador irá passar o gene afetado para aproximadamente metade de sua prole. Enquanto os portadores (Pp) forem cruzados com animais normais (PP), a prole não será afetada, mas alguns irão permanecer portadores. Se 2 portadores se cruzarem, alguns na prole (aproximadamente 25%) serão afetados.
Enquanto a freqüência de um gene para uma doença recessiva permanecer baixa na população, o gene específico pode passar não manifesto por muitas gerações até que por acaso 2 portadores sejam cruzados e nasçam indivíduos afetados. No entanto, a freqüência do gene pode se tornar excepcionalmente alta devido ao cruzamento entre familiares próximos, ou devido ao efeito do “macho popular”, onde um macho com um gene recessivo prejudicial é cruzado freqüentemente porque possui traços desejáveis.
Pelo fato do gene recessivo ser carregado nas populações de animais fenotipicamente normais, é muito difícil erradicar esses traços. No entanto, a incidência pode ser reduzida pela identificação dos portadores através de cruzamentos testes ou através de vários testes que tenham sido realizados e o uso consciencioso destas informações nos programas de cruzamentos.
 
3. Herança ligada ao sexo – Nestes traços, o gene está localizado no cromossomo X. Os machos terão 1 cromossomo X de sua mãe 1 cromossomo Y de seu pai. As fêmeas têm 2 cromossomos X, um de sua mãe e um de seu pai. Então, se uma mãe portadora (Xx) para um gene prejudicial recessivo passa o gene recessivo (x) para sua filha, a filha será uma portadora não afetada, mas os seus filhos que receberem este mesmo gene serão afetados. A hemofilia é, provavelmente, o exemplo melhor conhecido de herança ligada ao sexo, mas que, felizmente, não é comum no cão.
 
4. Herança poligênica – Traços poligênicos são controlados por um número desconhecido de genes. A expressão do gene é influenciada por uma variedade de fatores incluindo sexo, nutrição, taxa de crescimento e quantidade de exercícios. Esses traços são traços quantitativos, isto é, há uma grande variação na população. Tais traços incluem altura, peso, temperamento, habilidades de trabalho e alguns defeitos genéticos. A herdabilidade varia nas diferentes raças e em diferentes populações de uma mesma raça.
Pelo fato de ser virtualmente impossível determinar o genótipo exato para tais traços, é difícil controlar defeitos com modo de herança poligênico. As melhores tentativas de controle são baseadas em desenvolver-se um esquema de identificação do defeito e uma política de registrar e publicar os resultados para o número máximo de cães. A displasia coxo-femoral canina é um traço poligênico que permanece um problema na maioria das raças grandes, apesar dos esforços para controlar esta condição, desde os anos 60. Criadores e veterinários em vários paises desenvolveram programas de controle que se baseiam em avaliação radiológica e um registro centralizado dos cães. A seleção consciente por parte dos criadores, usando estas informações, reduziu grandemente a incidência de displasia coxo-femoral nestas raças mais afetadas.
 
 

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