Domingo, 05 de setembro de 2010.

Metas na Criação

Criar cães é uma arte e é preciso possuir uma sensibilidade especial para programar os cruzamentos corretos e obter bons resultados. O fator sorte também tem o seu peso, é claro, mas a sorte não servirá de desculpa por muito tempo. Um criador que tenha por objetivo o desenvolvimento da raça terá que trabalhar arduamente em pesquisas, experimentos de cruzamentos e análise criteriosa dos resultados. A criação não pode ser um empreendimento puramente comercial porque não visa apenas produzir filhotes, mas sim desenvolver uma linhagem. A produção de filhotes será decorrência e não o objetivo principal do canil. Por isso esta produção, dependendo do tamanho do plantel do criador, será esporádica e a sua comercialização pode ser onerada por custos inerentes à baixa oferta. A contrapartida será a qualidade dos produtos, resultado da escolha criteriosa dos pais e da análise de compatibilidade das linhagens. Toda criação praticada com seriedade e ética indiscutivelmente precisa, além de buscar a qualidade, zelar sempre para que os filhotes e cães produzidos ou mantidos no plantel sejam animais felizes e que proporcionem felicidade aos que os adquirirem.
Não existem atalhos para o melhoramento da raça. Este melhoramento só pode ser conseguido através de cuidadosa e paciente seleção. A criação seletiva é a base para o sucesso na criação. A experiência nos mostra que é essencial uma seleção correta dos acasalamentos. Não há outro método de aprimoramento da criação a não ser a escolha criteriosa dos progenitores. Temos que escolher o reprodutor não apenas pelo seu pedigree, mas também pelas suas características fenotípicas. Sem considerarmos as possibilidades de fraudes e as trocas de registros genealógicos, somente as leis da genética já justificam plenamente a importância da avaliação dos reprodutores em si e não somente de seus registros. Isto não quer dizer que o pedigree não tenha importância, mas apenas que cães com pedigrees iguais podem ser totalmente diferentes. Um mastino com posterior fraco, cabeça pequena e problemas de aprumo, pode ser irmão de ninhada de um grande campeão nacional, quase perfeito. E os pedigrees destes dois cães serão exatamente iguais. Assim, o critério para a escolha dos padreadores e das matrizes devem se basear tanto nas suas características fenotípicas, ou seja, nas suas qualidades aparentes, quanto no seu valor genético, ou no seu pedigree. Devemos dar preferência a cães saudáveis, belos, típicos e de características harmoniosas e não somente àqueles de excelente pedigree.
Um bom trabalho de criação começa com a escolha de uma boa matriz. A matriz reprodutora original é a base da criação de um afixo. Dela irá depender inequivocamente o rumo que irá tomar a criação seletiva. É vital que a cadela fundadora possua um patrimônio genético de qualidade inconteste nas primeiras gerações inseridas no seu pedigree, não deixando suspeitas de ascendência de qualidade duvidosa. A reprodutora não precisa ser uma campeã, mas deve ser uma cadela de uma boa linha de sangue sem defeitos óbvios. As características que uma boa reprodutora deve ter são uma boa ossatura e boa massa muscular, uma estrutura equilibrada e harmoniosa e uma cabeça típica. O ideal é adquirir para matriz original uma cadela já adulta, pois assim você terá certeza de que ela possuirá as características desejadas. Filhotes mudam muito durante o seu crescimento e sua escolha será sempre um tiro no escuro, mesmo que tenham excelente pedigree.
Cruze então esta cadela com um cão de qualidade, talvez de origem semelhante. Mantenha os filhotes nascidos por algum tempo, de forma que você possa ver qual deles “deu certo” e escolha o melhor de todos. Faça isto cada vez que você a acasala, e em alguns anos você poderá ter uma criação tão boa quanto qualquer outra no país.
Se a primeira geração de sua cadela original lhe trouxer mais de um bom exemplar, você pode então fazer várias procriações de um lado para outro com meio-irmãos/irmãs filhos dela e com filhos novamente com ela, sempre mantendo só os melhores de todos, fazendo desta cadela a fundação de sua criação. Talvez você possa até mesmo levar algumas de suas filhas para cruzar com bons reprodutores de outras criações que possuam qualidades que sejam interessantes para acrescentar ao seu plantel, obtendo machos que você poderá então cruzar de volta com sua cadela original, se eles forem do tipo almejado.
O objetivo é produzir com uniformidade as qualidades presentes nos melhores exemplares da raça criada. Não devemos, no entanto, cair na tentação de procurar nos filhos cópias xerocadas dos pais. O bom animal deve ser ele próprio, somando o máximo das qualidades dos pais e o mínimo dos seus defeitos.
Devemos, não apenas ter o objetivo de criar animais perfeitos em si mesmos, mas também de que eles possuam a tendência hereditária de reproduzir a sua própria perfeição. Isto é o que podemos chamar de alcançar a excelência universal. E isto é mais importante do que a perfeição individual. Um bom filhote ocasional numa ninhada não significa que o pai ou a mãe sejam reprodutores de valor. Uma ninhada com cinco exemplares “muito bons” é bem mais valiosa do que outra que apresente apenas um filhote “excelente” e os demais medíocres.
Acasalamentos sonhados podem dar filhotes decepcionantes. A cadela reprodutora pode ou não transmitir as qualidades que ela mesma possui, o mesmo podendo ocorrer com o macho. Vale lembrar que o fenótipo (aparência externa) nem sempre corresponde ao genótipo (carga genética) do animal. Um cão pode apresentar excelentes qualidades, mas devido à sua grande heterozigose ele pode também transmitir defeitos à sua prole. A carga genética de um cão não pode ser conhecida com exatidão apenas através do fenótipo. Juntamente com os genes das características visíveis, são repassados genes “invisíveis” – aqueles que, apesar de presentes, não se manifestaram no indivíduo, mas que, provavelmente, afetarão descendentes.
Além disso, as condições ambientais catalisam ou suavizam tendências genéticas. Os múltiplos fatores genéticos, dos quais depende toda a constituição do animal, se desenvolvem mais ou menos segundo as influências externas a que são submetidos. O que um indivíduo é depende de sua interação com o meio e de sua bagagem hereditária. Ou seja, os genes determinam o que o animal poderá vir a ser, e não o que ele realmente se torna. Entre os fatores ambientais externos que podem interferir nas características fenotípicas podemos citar, por exemplo, a qualidade do alojamento, tipo de piso, nutrição, insolação, vacinação, estímulo a atividades físicas, etc.. Além disso, há também os fatores ambientais maternos como as condições de saúde e de nutrição da mãe durante a gravidez, a quantidade e qualidade do leite materno oferecido aos filhotes durante o período de amamentação, etc.. Um filhote proveniente de excelentes exemplares pode vir a ser submetido a situações que não lhe proporcionem condições de desenvolver todo o seu potencial hereditário, mas isto não alterará o seu bom patrimônio genético.
Outro aspecto importante é não se iludir com a idéia, embora difundida, completamente errada de que defeitos opostos hereditariamente se equilibram. É impossível que posteriores super-angulados possam ser melhorados pela falta de angulação. A única solução para se chegar ao equilíbrio é somente o correto. Para uma garupa defeituosa, deve-se utilizar uma garupa correta; para uma má angulação, somente uma angulação correta. Neste trabalho, não apenas o animal utilizado, mas também seus antepassados devem melhorar o defeito de outro, devendo ser corretos em relação a este defeito. Para se eliminar um defeito, deve-se usar na criação animais que não sejam portadores do respectivo defeito, e nem o tenham em seus antepassados. Deve-se procurar pela seleção apropriada e criar animais com hereditariedade limpa.
O importante, qualquer que tenha sido a forma de começar, é saber aonde se quer chegar e desenvolver uma visão crítica para reconhecer e perseguir sua meta. O que se quer criar é uma questão de opinião pessoal. Mesmo respeitando o padrão da raça, criadores diferentes têm gostos e padrões pessoais de perfeição diferentes. Aprenda tanto quanto você puder não apenas sobre a linhagem que você está trabalhando, mas sobre outras linhagens e a raça em geral. Não vacile em trazer algo novo se achar que irá funcionar com o que já tem. E tenha a coragem de recomeçar e se desfazer do que tem se não estiver funcionando, lembrando que o tempo investido lhe trouxe experiência e, portanto, não foi perdido. Assim, em menos tempo do que imagina, alcançará o sucesso.
 
TIPOS DE SELEÇÃO NA CRIAÇÃO
 
1. Inbreeding - É um programa onde se trabalha com animais que possuam características semelhantes, herdadas tanto da mãe como do pai, e que sejam parentes consangüíneos relativamente próximos. No pedigree, quando observamos que o mesmo ancestral aparece várias vezes nas últimas cinco gerações, tanto por parte do padreador como da matriz, ocorreu o que se chama de inbreeding, e significa que houve preponderância de seu sangue. O inbreeding pode ser intensivo, como o acasalamento de pai com filha, mãe com filho, irmão ou meio-irmão com irmã, etc.. No entanto, o mais comum é o acasalamento de um macho com a meia-irmã de sua mãe, produzindo desse modo, preponderância do sangue de seu avô materno. Tal tipo de acasalamento é chamado de line-breeding, o que é muito mais recomendável do que o inbreeding intensivo, embora dê resultados mais lentos. Devemos lembrar que o inbreeding intensivo acarreta uma rápida duplicação, tanto de genes dominantes quanto de recessivos nos pares de cromossomos da nova geração. Assim, eles podem ser utilizados tanto para fixar como para eliminar características. No entanto, não se está criando nada de novo, apenas fixando características de ancestrais considerados exemplares expoentes da raça. Mas, ao consolidarmos os traços desejáveis, estamos ao mesmo tempo, assumindo também o risco de intensificarmos as faltas dominantes, pois a consangüinidade aumenta a quantidade de homozigose e promove a diminuição de heterozigose, ou seja, aumenta a oportunidade dos genes recessivos, encobertos nos heterozigotos, se expressarem. Trata-se de um perigo real. Existe ainda a possibilidade de que, nesses esforços de seleção, venhamos a perder o vigor do plantel. Esta é outra conseqüência negativa da consangüinidade chamada de “depressão endogâmica”, que se caracteriza pela redução da capacidade reprodutiva e eficiência fisiológica, levando a uma redução geral da fertilidade, do tempo de sobrevida e do vigor dos animais.
 
2. Out-cross - Neste programa trabalhamos com animais sem qualquer parentesco entre si, o que torna a fixação de características muito mais difícil, devido à constante introdução de material genético diferente. Somos obrigados a nos basear apenas no fenótipo, e, na verdade, sempre estamos dando tiros no escuro. A grande vantagem deste programa é a manutenção da variabilidade genética, que nos leva ao vigor do híbrido, o que torna as anomalias congênitas um perigo remoto.
 
O line-breeding é o meio-termo ideal entre o inbreeding e o out-cross e pode ser usado por diversas gerações sucessivas sem causar a perda do vigor genético, embora seja um pouco mais demorado para a fixação de características.
Outra possibilidade é intercalar inbreeding e out-cross. Desta forma, fixam-se características e mantém-se a variabilidade genética e o vigor do híbrido. É também uma forma de seleção mais lenta para a criação, no entanto mais segura e gratificante.
O acasalamento de animais com alto grau de parentesco (pais e filhos, irmãos ou meio-irmãos) é sem dúvida o método mais rápido para se fixar uma característica, mas também pode resultar em perda de tempo. Quando acasalamos animais muito próximos entre si por duas ou três gerações seguidas, podemos sofrer os efeitos da “impenetrância”, ou seja, temos ótimos exemplares como produto final, mas sem potencial para transmitir seu patrimônio genético. São desalentadores os resultados comunicados por criadores que tentaram acasalar irmão com irmã, com o intuito de fixar boas características em seu plantel. Verificou-se que este tipo de acasalamento tem como conseqüência um acentuado decréscimo na vitalidade e robustez dos filhotes nascidos.
Em muitos casos, é necessária a utilização de out-cross para se recuperar o vigor genético do plantel e o preço será a perda do trabalho desenvolvido anteriormente através do inbreeding, já que no out-cross a variabilidade genética alcançada anulará a fixação das características obtida no inbreeding.

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