O Dr. Jack é um dedicado terapeuta que trabalha há 7 anos na Clínica Mayo, em Rochester, Minessota (EUA). Carismático e atencioso, ele tem uma intensa rotina de trabalho: visita, por dia, cerca de 10 pessoas em reabilitação. As consultas são aguardadas com alegria pelos pacientes, que têm de 11 meses a 92 anos. No entanto, Jack não é um terapeuta como os outros. É um cachorro da raça pinscher miniatura de 9 anos, e é hoje um dos mais importantes membros da Clínica Mayo. Acompanhado por sua dona, a funcionária Marcia Fritzmeier, Jack tornou-se parte da equipe de tratamento de saúde deste centro médico.
Ao buscar alternativas para o tratamento de seus pacientes, a clínica apostou na técnica chamada cãoterapia — uma derivação da zooterapia tradicional, que explora a presença de animais para incentivar e abreviar a recuperação de pacientes que ficam longos períodos internados, pessoas com limitações físicas e mentais, crianças e idosos.
As raças preferidas de cachorros são Golden Retriever e Labrador, mas qualquer cão pode ser terapeuta, desde que seja saudável, dócil e treinado. O temperamento isento de agressividade e o treinamento são fundamentais. O cão deve obedecer aos comandos do proprietário, devendo ser facilmente controlado por ele. Deve gostar de afagos e não reagir a situações inesperadas.
A terapia com cães não promete a cura de doenças, mas promove benefícios físicos e mentais, tais como melhoria da capacidade motora, do sistema imunológico, dos sintomas da depressão; diminui a ansiedade e a pressão sanguínea, aumenta a sociabilidade e o sentimento de auto-estima. A presença do cachorro alegra o ambiente hospitalar e favorece as relações entre os pacientes. Eles se sentem motivados e realizam os exercícios físicos e de memória sem perceber.
“Por que usamos um animal na terapia de pacientes? Porque funciona!”, diz o médico Brent Bauer, do Departamento de Medicina Complementar e Integrativa da Clínica Mayo.
A cãoterapia em hospitais já vem sendo adotada nos Estados Unidos há várias décadas. No Brasil, o método foi introduzido em 1997 pela veterinária e psicóloga Hannelore Zucks.
Em Brasília, o geriatra Renato Maia coordenou durante um ano a cãoterapia com pacientes do Centro de Medicina do Idoso do Hospital Universitário de Brasília (HUB). Semanalmente, 16 idosos com Doença de Alzheimer recebiam a visita de dois cães: Ventus, um Boiadeiro Bernês, e Barney, um Golden Retriever. As médicas veterinárias Damaris Rizzo (dona de Barney), Esther Odenthal (proprietária de Ventus) e Renata Guina, voluntariamente, se uniram a Renato na busca por acabar com o mito de que cachorros em ambiente hospitalar são prejudiciais à saúde pelo risco de infecção. “Os cães eram vacinados, examinados mensalmente, contavam com o acompanhamento constante das veterinárias e antes das visitas, tomavam banhos especiais”, explica o médico.
A veterinária Renata Guina conta que o projeto, realizado entre 2005 e 2007, trouxe resultados positivos para os pacientes e seus familiares. Os cães participavam dos exercícios de memória e fisioterapia, dentre outros, sempre sob supervisão dos médicos e dos veterinários. As atividades dirigidas incluíam brincadeiras. Infelizmente, o projeto foi desativado em 2007 por falta de profissionais capacitados que substituíssem as três veterinárias.
Em São Paulo, O projeto “Amicão”, coordenado por Angela Borges e Luci Lafusa, teve início no ano de 2006, com crianças, pacientes psiquiátricos e idosos do Hospital São Paulo (HSP). Nossa primeira experiência foi realizada a partir de uma parceria estabelecida entre profissionais da saúde e voluntárias que possuem um cão da raça Golden Retriver (Joe Spencer). Joe foi previamente adestrado para a terapia com crianças (inclusive de UTI e PS), idosos e pacientes internados na unidade de psiquiatria do HSP. Após terem sido comprovadas as condições de saúde do cão, obter a autorização da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e aprovação da Diretoria do HSP, foram iniciadas as visitas à unidade de Pediatria Clínica.
As visitas de Joe ocorrem todas as quartas-feiras no período da tarde e são acompanhadas por sua proprietária e por membros da equipe do hospital. Em geral, ele inicia as visitas pela UTI Pediátrica, junto às crianças conscientes, e então pela unidade de Cirurgia Pediátrica, onde visita todas as crianças acamadas. Segue para o PS de Pediatria, onde visita as crianças em observação, e para a Pediatria Clinica, na área destinada à recreação, onde brinca com as crianças. Os pais são estimulados a trazerem as crianças que podem sair dos quartos para afagar o cão. Na seqüência ele passa pela unidade de Psiquiatria e fica com os pacientes numa área de convivência e recreação e finalmente vai para uma unidade de adultos (clinica ou cirúrgica), onde visita principalmente os idosos. Para saber mais sobre o projeto contacte as coordenadoras pelo fone: (11) 9674.0429 ou pelo e-mail angela.vitoria@unifesp.br .